Militares reparam com lonas telhado de casa de idosa na Coelheira
- 02/02/2026
"Já vejo socorro", desabafou a idosa, com 80 anos, que esboçou um breve sorriso ao ver chegar os militares.
Embrulhada em casacos pretos de lã e com um chapéu negro na cabeça para se proteger do vento cortante e da chuva gélida, Arminda Simões não esconde a preocupação nem a tristeza por ver a sua casa destruída pela tempestade e lamenta ter perdido toda a comida que guardava na arca, pois a eletricidade teima em faltar há seis dias consecutivos.
"Estragou-se a comida toda, um prejuízo grande. O teto está todo escavacado", exclama.
Enquanto observa os trabalhos dos militares, Arminda Simões recorda que na noite da tempestade Kristin foi acordada pela água a bater-lhe na cara.
"Pensei que morria. Tive medo do barulho do vento, nunca vi coisa igual. Foi assustador. Saí da cama de pijama e fugi para casa do meu filho, que mora uns metros à frente", descreve.
A lona de vinil branca que está ser colocada ao longo desta tarde no telhado da casa de Arminda tem mais de seis metros de comprimento e foi estendida pelos militares no largo da aldeia.
Nem a chuva forte, que cai precisamente no momento da preparação da colocação da lona, suspendeu os trabalhos. Munidos de escadas altas, fios para segurar as lonas, vassouras, martelos e uma parafernália de ferramentas, os militares continuaram a trabalhar sem interrupção.
Em declarações à Lusa, o alferes Luís Sousa conta que as maiores dificuldades no terreno são a chuva e os acessos às casas e aos telhados.
"Isto é um trabalho bastante moroso", assume, acrescentando que não consegue precisar em quantas habitações é que o destacamento vai conseguir trabalhar no dia de hoje.
Desde sábado, os militares do Exército português conseguiram intervir em três habitações, sendo a quarta habitação a de Arminda Simões, que ficou desalojada e está a viver em casa de um dos filhos.
Junto da casa estavam duas viaturas ligeiras do Exército, uma viatura pesada e um equipamento de engenharia com uma plataforma elevatória, que irá permitir alcançar o telhado para a colocação da lona.
Durante os trabalhos, um dos militares perguntou à idosa, diabética, se tinha comido alguma coisa, convidando-a em seguida para ir beber um chá quente com ele.
A esperança é de que esta noite o telhado da casa esteja mais protegido da chuva, que teima em não parar.
O presidente da Junta de Freguesia de Figueiró, Arlindo Dinis, apelou hoje à E-Redes para levar eletricidade ao concelho de Figueiró dos Vinhos, lamentando que continuem a sentir-se isolados há seis dias.
"O que agora está a dar energia são os geradores ligados a PT [postes de transformação], mas é só no centro urbano para os serviços centrais trabalharem. Desde a primeira hora que estamos a pedir geradores para as freguesias de Figueiró dos Vinhos e até agora não chegaram", denuncia Arlindo Dinis.
O autarca assume que a população está a "desesperar sem luz em casa há seis dias" e que se sente discriminada, porque sabe que a eletricidade chegou a outros concelhos do distrito de Leiria.
Segundo o presidente da junta, "75% das habitações do concelho ficaram danificadas" e "há muitas casas ainda sem proteção nos telhados".
Segundo o tenente-coronel Hélder Parcelas, porta-voz do Exército das Forças Armadas, em Figueiró dos Vinhos está um Destacamento de Engenharia do Exército desde sábado, que trouxe "18 toneladas de lona" de Famalicão, distrito de Braga, com a missão de reparar os telhados das casas afetadas de forma provisória e, desta forma, fazer face às chuvas previstas para os próximos dias.
O empresário da construção civil Rúben Filgueiras, 25 anos, conta que todo o negócio foi destruído e que tem seguro, restando-lhe agora fotografar tudo e pedir apoio à Câmara de Figueiró.
"Tenho prejuízos de mais de 30 mil euros", aponta, referindo que apesar de os contentores terem ficado destruídos, a empresa está a tentar ajudar os clientes que pedem ajuda para colocar thelhas nos telhados.
"Andamos a ajudar os nossos clientes com telha, mas está a ser difícil arranjar certos tipos de telhas antigas que já não se fabricam", lamenta.
Nove pessoas morreram desde a semana passada na sequência do mau tempo. A Proteção Civil contabilizou cinco mortes diretamente associadas à passagem da depressão Kristin e a Câmara da Marinha Grande anunciou uma outra vítima mortal, a que se somaram depois três óbitos registados por quedas de telhados (durante reparações) ou intoxicação com origem num gerador.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, quedas de árvores e de estruturas, cortes ou condicionamentos de estradas e serviços de transporte, em especial linhas ferroviárias, o fecho de escolas e cortes de energia, água e comunicações são as principais consequências materiais do temporal, que provocou algumas centenas de feridos e desalojados.
Leiria, Coimbra e Santarém são os distritos com mais estragos.
Leia Também: Proteção civil registou 764 ocorrências entre as 00h00 e as 12h30





