País mobilizado em Leiria, Sertã ao abandono: "Aqui também vivem pessoas"
- 03/02/2026
Uma semana depois da tempestade que deixou um rasto de destruição, várias aldeias na Sertã continuam ao abandono. Com um grande número de meios mobilizados para a região de Leiria, a população daquela vila de Castelo Branco sente-se esquecida e tenta tudo o que pode para pedir ajuda.
"A situação na Sertã continua caótica. Falta água, luz e comunicações na maioria das aldeias", conta ao Notícias ao Minuto Ema Gomes, que ficou sem telhado na noite da tempestade.
"Não chegou aqui ninguém. Não veio ajuda nem meios de fora", adianta.
Naquela zona, como nos conta, a população é "maioritariamente idosa" e, noutros casos, os apelos não chegam porque "há quem não os faça porque nem sequer consegue comunicar".
Diogo Luís é um dos afetados na aldeia das Sarnadas. Na madrugada de 28 de janeiro, viveu um momento "verdadeiramente avassalador", quando ficou com a sala, cozinha e casa de banho a descoberto.
"O telhado por cima dos quartos também ficou danificado. Muitas das nossas coisas voaram. Portas de vidro partiram-se, chapas dos anexos foram arrancadas e levadas pelo vento", recorda agora, numa publicação partilhada no Facebook.
Diogo conta que, "no meio do caos", a família reuniu-se numa divisão. "No momento de maior força do vento, segurei uma porta com toda a força que tinha para impedir que ele entrasse na divisão onde estávamos todos abrigados", contou, acrescentando que só depois saiu e teve a noção da dimensão dos estragos.
"Hoje, segunda-feira, continuamos sem luz, com muitas casas ao descoberto, telhados destruídos e famílias fragilizadas. Até ao momento, ninguém apareceu para saber de nós", revela. "Somos poucos, é uma aldeia pequena, mas aqui também vivem pessoas, famílias, idosos e crianças que precisam de apoio. Tenho uma criança que dorme com máquina de respiração e soluções nada, zero."
"Esta zona está a ser esquecida. Sei que Leiria precisa, mas as ajudas devem ser divididas por todos os afetados, e não estão a ser", queixa-se outra moradora num grupo de Facebook da Sertã, onde têm chegado várias questões e apelos.
"Não temos luz nem internet há quase 7 dias", reclama outro dos afetados pela tempestade.
Num balanço feito ontem, a Câmara da Sertã informou, após reunião com a E-Redes, que cerca de 50% dos postes de média tensão estão derrubados ou destruídos e a baixa tensão "é dispersa e está muito danificada".
Hilário Lino, responsável regional da E-redes, referiu que "estão a ser levantados postes, máquinas a abrir caminhos e vários geradores ligados".
O presidente da Câmara Municipal da Sertã diz que tem pressionado o Governo porque é "inconcebível a demora".
"Tem que haver uma resposta do Governo, que tem que fazer mobilização nem que seja internacional, para trazer meios ao terreno, caso contrário vai demorar semanas a restabelecer", afirmou Carlos Miranda.
Segundo o autarca, está a caminho do terreno um petolão de 20 militares do Exército que irão intervir no apoio à colocação de coberturas e limpeza da rede viária.
"Não precisamos de alimentos porque não há quebra nas cadeias de abastecimentos, precisamos é de meios humanos e técnicos no terreno para nos ajudar", afirmou o autarca.
Embora seja difícil precisar neste momento o balanço total de prejuízos, Carlos Miranda não tem dúvidas de que estes ultrapassam os 20/30 milhões de euros.
"A situação é muito precária e a este ritmo vamos demorar semanas ou meses a restabelecer a normalidade", afirmou.
Entretanto, do lado dos populares, os pedidos sucedem-se. No conselho de Sertã permanecem 35 pessoas desalojadas.
A Cáritas apoiou "muitas pessoas sem casas" na Sertã, onde ocorreram "casos complicados", na sequência da tempestade Kristin.
"Há muitas pessoas sem casas. Estão alojadas no Pavilhão dos Escuteiros e a Cáritas deu resposta com bens de primeira necessidade e roupas", revelou à Lusa Nuno Brito, presidente da Cáritas Diocesana Portalegre-Castelo Branco.






