Procurador-geral do TPI volta a ser acusado de má conduta sexual
- 30/08/2025
O procurador-geral do Tribunal Penal Internacional (TPI), Karim Khan, voltou a ser acusado de má conduta sexual. Segundo avançou o jornal The Guardian, uma segunda mulher apresentou-se no âmbito de uma investigação sobre alegações de abuso sexual contra o advogado britânico.
Karim Khan, recorde-se, já tinha sido acusado por uma advogada do TPI de má conduta em 2024 e, em maio deste ano, afastou-se temporariamente do cargo enquanto se aguarda o resultado de uma investigação do Gabinete de Serviços de Supervisão Interna, um organismo de vigilância interno das Nações Unidas.
Agora, segundo o The Guardian, uma mulher denunciou que, enquanto trabalhava para Khan no início da sua carreira, o procurador-geral do TPI comportou-se de forma inadequada e sujeitou-a a avanços sexuais abusando da sua autoridade sobre ela.
Na altura dos factos, a mulher tinha "20 e poucos anos" e trabalhava como estagiária não remunerada para Khan, quando ele era um "importante advogado de defesa no TPI e noutros tribunais de crimes de guerra em Haia".
Em entrevista à publicação britânica, sob condição de anonimato, a mulher contou que Khan abusou do seu poder e influência. "Ele não devia ter feito isso. Ele era o meu empregador", afirmou.
As duas acusações contra Khan são bastante semelhantes, com ambas as mulheres a alegar que o britânico lhes pedia para irem trabalhar na sua casa. Depois, sentava-se ao lado delas no sofá, tocava-lhes, beijava-as e tentava persuadi-las a ter relações sexuais.
Os advogados de Khan garantiram que "é totalmente falso que ele tenha cometido qualquer tipo de conduta sexual imprópria". Citados pelo Guardian, dizem ainda que o advogado "nega categoricamente" ter "assediado ou maltratado qualquer pessoa, ou ter abusado da sua posição ou autoridade, ou se envolvido em qualquer conduta que pudesse ser interpretada como coerciva, exploradora ou profissionalmente inadequada".
O procurador-geral do TPI já ter apresentado provas que "contradizem totalmente as alegações que lhe foram feitas" e "em vários aspetos materiais mostram que essas alegações são comprovadamente falsas".
O mandado de Karim Khan como procurador-geral do TPI, cargo que ocupa desde 2021, foi abalado em outubro do ano passado, após uma advogada na casa dos 30 anos, que trabalhava diretamente com ele, ter denunciado uma má conduta sexual ocorrida entre 2023 e 2024.
Na altura da acusação, Khan emitiu um comunicado onde defendeu que, em 30 anos de trabalho, "nunca houve qualquer queixa" contra si.
"É com profunda tristeza que tomo conhecimento de que informações sobre má conduta minha vão ser tornadas públicas", disse. "Não há qualquer verdade nas alegações de uma tal má conduta".
"Vivemos numa época em que eu e o Tribunal Penal Internacional somos alvo de ataques e ameaças de todo o tipo", acrescentou.
O Tribunal Penal Internacional, sublinhe-se, conduz investigações que envolvem a Rússia, a Ucrânia, os territórios palestinianos e Israel, entre outras.
A acusação aconteceu algumas semanas antes de Khan ter solicitado mandados de captura contra o primeiro-ministro israelita, Benjamin Netanyahu, o seu ex-ministro da Defesa Yoav Gallant e três líderes do movimento islamita palestiniano Hamas, acusados de crimes de guerra.
"Tentava descobrir como ficar nas boas graças dele e ganhar experiência profissional sem dormir com ele"
Patricia (nome fictício) foi a segunda mulher a apresentar queixa contra Karim Khan e contou ao The Guardian que começou por ver o seu estágio como uma oportunidade "emocionante e significativa".
"Karim era uma pessoa bem relacionada e respeitada, que podia fazer as coisas acontecerem e que falava bem de ti", contou.
No entanto, o trabalho acabou por ter "um preço que não deveria ter tido" e foram várias a experiências de má conduta sexual, incluindo apalpões e investidas em sua casa.
"Eu tentava descobrir como ficar nas boas graças dele e ganhar experiência profissional sem dormir com ele e sucumbir", disse. "Quando estávamos na casa dele era como um ataque constante".
"Lembro-me de inventar todo o tipo de desculpas idiotas para não dormir com ele, só para tentar não o irritar", contou.
Karim Khan afastado do TPI enquanto decorre investigação
O procurador-geral do TPI afastou-se temporariamente do cargo enquanto se aguarda o resultado da investigação sobre alegações de má conduta sexual. O anúncio foi feito a 16 de maio de 2025.
O tribunal afirmou que Khan comunicou "a decisão de tirar uma licença até ao final" da investigação externa, levada a cabo pelo Gabinete de Serviços de Supervisão Interna.
Enquanto Khan estiver de licença, os procuradores-adjuntos do tribunal serão responsáveis pela gestão do gabinete do procurador-geral.
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